Endogamia

Os escravos preferiam unir-se com companheiras da mesma origem étnica. Chama-se a esse fenômeno endogamia. | Mary Del Priore – Histórias da Gente Brasileira – Volume 1

A endogamia nada mais é do que o casamento entre iguais, seja a igualdade definida em termos étnicos, religiosos ou financeiros. O fenômeno não estava restrito aos escravos africanos e mesmo entre eles não se sustentou quando o tráfico escravagista se intensificou no século XIX, como afirma Mary Del Priore na obra citada.

Um conhecido exemplo de endogamia por motivos religiosos se observou entre os judeus, que tiveram uma convivência difícil com as comunidades locais na Espanha e em Portugal nos séculos passados. Por professarem uma religião não proselitista, só lhes restava o casamento entre os seus, fenômeno que acabou se perpetuando mesmo entre aqueles que, forçados à conversão ao catolicismo por D. Manuel,  mantiveram seus costumes de forma privada – conhecidos como criptojudeus.

Quanto à endogamia por razões de poder financeiro ou domínio territorial, há o caso dos nobres, que casavam suas filhas de forma a manter ou ampliar seus domínios territoriais e financeiros. Além dos nobres, havia famílias abastadas que casavam seus filhos de forma a ampliar suas posses ou talvez apenas manter os relacionamentos entre seus iguais.

Creio ter encontrado em minha árvore familiar alguns casos de endogamia. Isso ocorreu no ramo da família que chamarei de Rebello, oriundo de Viseu. O patriarca desse ramo é Antonio Pinto Rebello (? – 1808), conhecido como cirurgião, de quem já falei em outro texto.

Embora, o ofício de cirurgião tenha por muito tempo sido considerado menor por envolver o uso de habilidades manuais, as evidências documentais sugerem que Antonio Pinto Rebello era um homem de posses, pois teve um filho médico – José Pinto Rebello ou José Pinto do Souto. Ter um filho médico ou padre exigia recursos materiais que não estariam disponíveis para um simples agricultor. A profissão de José Pinto Rebello surge no assento de batismo de Teresa, sua neta.

Aos sete dias do mês de dezembro do ano de 1824, nesta igreja de Nossa Senhora da Assunção e colegiada de Barcos, batizei solenemente, digo, batizou de minha [licença] e pôs os santos óleos o padre Jose de Amaral Anjo a Teresa, filha de Jose de Menezes e Teresa [Emília] do bispado de Pinhel, e Theresa Amália, natural desta freguesia, sendo primeiro matrimônio da parte de ambos. A batizada tinha nascido a 28 do dito mês. Neta paterna de José Pinto do Souto e sua mulher Bárbara Ribeiro, naturais desta freguesia, e pela materna neta de Isidro de Almeida e sua mulher Ermelinda, naturais de [Serrinho], bispado de Pinhel, digo, neta [paterna] de Isidro de Almeida e sua mulher Anna Ermelinda, e pela materna neta de José Pinto do Souto e Bárbara Ribeiro, desta freguesia. Foram padrinhos o médico José Pinto Rebello, [] na Ervedosa, [] por procuração [] Manoel Pinto [Sequeira] e sua mulher Rita de [], desta freguesia. Foram testemunhas Antonio Duarte, sacristão nesta colegiada  [] de [Araújo], desta vila. Para constar fiz este assento, dia, mês e ano ut supra.

Theresa Amália, filha de José Pinto do Souto e mãe da criança batizada, por sua vez, era casada com um militar. José de Menezes Sá Almeida, seu marido, foi identificado como alferes no assento de casamento deles, transcrito abaixo.

Aos nove dias do mês de junho do ano de 1822, nesta freguesia de Nossa Senhora da Assunção e colegiada de Barcos, na minha presença e das testemunhas abaixo nomeadas, e na forma do concílio tridentino e constituição deste bispado, receberam de presente o sacramento do matrimônio, com licença [e] banhos pelo Exmo. Reverendo [] Monsenhor Bispo, José de Menezes Sá Almeida, alferes [Caçadores] do Número nove, filho legítimo de Isidoro de Almeida e D. Anna Ermelinda de Serrenho, bispado de Pinhel, e Theresa Amália Pinto, filha de José Pinto do Souto e Bárbara Theresa Ribeiro, naturais desta freguesia de Barcos, de que foram testemunhas Manoel Pinto Serqueira, e o padre Antonio Cardoso, [] desta colegiada. E para constar fiz este termo, dia, mês e ano ut supra. – o pároco Serafim Duarte dos Santos

A carreira militar era uma opção desejada pelos jovens do século XIX, pois era meritocrática e alimentava o ideal romântico do herói da pátria. É importante observar também que a mãe do alferes era uma mulher de alguma distinção, pois recebeu o tratamento de Dona, o qual era reservado “a senhoras com algum relevo na sociedade, sem que isso significasse pertença à nobreza”, como explicam Queiroz e Moscatel.

O mesmo pode ser dito sobre a mulher do alferes, Theresa Amália, pois tratamento idêntico lhe foi dispensado por quem lavrou seu assento de óbito, que está transcrito abaixo.

Aos nove dias do mês de maio de 1862, às duas horas da noite, na casa da Rua da Cainha desta freguesia de Nossa Senhora da Assunção de Barcos, concelho de Tabuaço, distrito eclesiástico de Barcos, diocese de Lamego, faleceu D. Theresa Amália, costureira, da idade de 76 anos, viúva de José de Menezes, natural e paroquiana desta freguesia, filha legítima de José Pinto Rebello do Souto e Bárbara Ribeiro, naturais desta freguesia, neta paterna de Antonio Pinto Cirurgião e Maria Josefa, esta natural de Tabuaço, aquele desta freguesia de Barcos, e materna de Manoel Fernandes, natural desta freguesia, e Luisa Ribeiro, da freguesia de Tabuaço. Não fez testamento, deixou filhas. Recebeu os sacramentos da penitência, da eucaristia e não recebeu extrema-unção por não darem aviso. Foi sepultada no dia dez do supradito mês e ano na igreja desta freguesia. E para constar lavrei este assento em duplicado que assinei. Era ut supra. – o presbítero abade Antonio Rodrigues Pinheiro

Outro Rebello que merece destaque, enfim, é José Pinto Rebello de Carvalho, também filho do médico José Pinto do Souto, sobre quem publiquei um texto em que ressalto seu perfil de personagem romântico. Ele é apresentado como bacharel no assento de batismo de sua sobrinha, de quem foi padrinho.

Aos 22 dia do mês de março do ano de 1826, nesta igreja de Nossa Senhora da Assunção e colegiada de Barcos, batizei solenemente e pus os santos óleos a Maria Adelaide, que tinha nascido a 21 de fevereiro do dito ano, filha de José de Menezes e Sá, natural do Serrenho, e Theresa Amália, natural desta freguesia de Barcos, sendo primeiro matrimônio da parte de ambos. Neta paterna de Isidro de Almeida e D. Anna Ermelinda do Serrenho, freguesia da Torre, e pela materna neta de José Pinto do Souto e Bárbara Ribeiro, desta freguesia. Foram padrinhos o Bacharel José Pinto Rebello de Carvalho, tio da batizada e sua mulher Maria José Adelaide Ferreira Pinto e, com procuração destes [] Manoel Pinto de Serqueira de [] e sua mulher Rita [] desta vila. Foram testemunhas o padre sacristão Antonio Duarte e o padre Antonio Cardoso de Carrazedo, [ecônomo] nesta colegiada. Para constar fiz este assento dia, mês e ano ut supra. – o pároco Serafim Duarte dos Santos

O bacharel José Pinto Rebello de Carvalho era médico, escritor e teve importante participação na política de seu tempo. Embora ele tenha morrido pobre no Brasil, todas as evidências documentais apresentadas ratificam sua origem em uma família de recursos na região de Tabuaço, Viseu, entre os séculos XVIII e XIX.

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Igreja Matriz de Barcos – Fonte: Município de Tabuaço

Todas as fontes documentais analisadas sugerem que as pessoas citadas relacionaram-se com seus iguais, o que corrobora a interpretação de que seus relacionamentos foram de alguma forma orientados pelo princípio da endogamia.

Religiosos

Aos nove dias do mês de novembro de 1807, faleceu da vida presente Maria Clara, viúva que ficou de Luis de Amaral, natural desta vila de Barcos. Recebeu os sacramentos da penitência, sagrado viático e extrema-unção e seu corpo foi sepultado dentro desta igreja no dia dez do dito mês em que se lhe fez um ofício de corpo presente. Também fez testamento [fechado] em que dispôs além de outras coisas em quanto ao [] o seguinte: que seu corpo fosse sepultado na igreja matriz desta vila, e [] conforme o uso e costume, amortalhada com um hábito com ofício de corpo presente e, sendo dia impedido, no sucessivo, acompanhada com  as [] das confrarias, às quais se dará de esmola, por uma vez somente, a do Santíssimo, mil e duzentos réis, e acada uma das outras [] das almas o [] de um alqueire de pão que então tiver a cada qual e por minha alma se dirão cem missas, e mais de tenção particular que deixo [] 23 de esmola costumada e uma vez somente. E [] dos bens temporais que deixava [para sempre] sua filha Maria Theresa o terço de seus bens, que das suas últimas disposições testamentárias [bem de alma] [] lhes restassem, com obrigação de contribuir anualmente ao seu filho [Frei] Francisco de Jesus, com a tença de 24.000 réis enquanto vivo for, à cuja tença serão sempre obrigados os bens do terço [e para onde quer que passarem, irão onerados] [] até a hora em que ele faleça, cujo terço [] no campo do [] com todas as suas árvores e mais [] também disse a dita testadora que nomeava sua filha Maria Theresa por sua testamenteira para dar cumprimento ao seu bem da alma, e mais disposições testamentárias com o tempo de três anos para dar conta do seu cumprimento [] juízo a que tocar, e na sua falta ao meu genro Antonio de Macedo, de quem espero inteira satisfação e por verdade fiz este termo de assento que assinei na ausência do respectivo pároco, que estou substituindo, era mês e ano ut supra. Pelo respectivo pároco. Padre Manoel Duarte dos Santos

Frei Francisco de Jesus foi tio-avô de meu bisavô paterno. Maria Clara, sua mãe, teve outro filho que seguiu a vida religiosa: José Pereira da Motta, sobre quem falei em outro texto. O interessante neste longo assento de óbito são as disposições testamentárias de Maria Clara, que deveria ser uma senhora de algumas posses, de cuja administração resultaria a tença de 24.000 réis que frei Francisco deveria receber enquanto vivo.

Corrobora a interpretação de que Maria Clara era uma senhora de posses o fato de ter outro filho religioso, pois a ordenação religiosa só ocorria a partir de uma detalhada investigação dos antecedentes do candidato – a inquirição de genere – cujas despesas ficavam por conta do interessado. Além disso, aquele candidato que buscasse a ordenação deveria ter condições financeiras ou patrimônio que garantisse sua sustentação.

Aqui se vê o assento original:

PT-ADVIS-PRQ-PTBC03-003-0001_m0016_Óbito de Maria Clara_1
Óbito de Maria Clara – 9/11/1807 – Barcos, Tabuaço, Viseu – Página 1
PT-ADVIS-PRQ-PTBC03-003-0001_m0016_Óbito de Maria Clara_2
Óbito de Maria Clara – 9/11/1807 – Barcos, Tabuaço, Viseu – Página 2

José Araujo é linguista e genealogista amador.

Plymouth

Em texto anterior, descrevi as agruras por que passaram, na Inglaterra, os exilados que tiveram de fugir da perseguição do regime absolutista de d. Miguel em Portugal por apoiarem a constituição liberal de 1822. Entre esses exilados estava José Pinto Rebello de Carvalho (1788-1870), primo de minha trisavó paterna.

Enquanto naquele texto recorri a um estudo acadêmico e a um periódico editado por esse meu primo distante para que pudéssemos entender o sofrimento do exílio na perspectiva do exilado, neste texto recorro a um jornal da época – a edição de 5 de dezembro de 1828 do London Courier and Evening Gazette, para resgatar a perspectiva da comunidade que recebeu os exilados – os habitantes da cidade inglesa de Plymouth.

O texto da matéria publicada, exibido abaixo, foi obtido na base de dados The British Newspaper Archive, que contém registros que datam desde 1700.

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London Courier and Evening Gazette – Sexta-feira, 5 de dezembro de 1828

Aqui minha tradução livre desse texto, com meus destaques:

OS CONSTITUCIONALISTAS PORTUGUESES

PLYMOUTH, 3 de dezembro. Ao serem informados da proposta de dispersão dos refugiados portugueses, residentes neste município e vizinhanças fizeram um requerimento para convocar uma assembleia e o encaminharam ao prefeito (R. Freeman, MD). O prefeito acatou o requerimento e ontem foi realizada uma assembleia de bom público no Guildhall, com o objetivo de considerar a conveniência de transmitir o sentimento geral ao Governo de Sua Majestade e tentar evitar a calamidade que ameaçava os portugueses. O prefeito abriu a assembleia que iniciou pela leitura do requerimento – H. Woolcombe, apresentou várias propostas, que expressavam a melhor opinião a respeito dos portugueses e de sua conduta desde que se tornaram residentes em Plymouth; bem como o desejo geral de que os deixassem permanecer na cidade, tanto por conta de seus sofrimentos na causa da liberdade constitucional quanto por sua boa conduta, e também por causa dos benefícios que sua presença trazia para a cidade. Ele disse que considerava a questão passível de ser gerida pelos habitantes, que deveriam reunir-se e expressar seus sentimentos ao Governo. Ele se absteve de adotar uma visão política sobre a questão, mas, ao mesmo tempo, não deveria se eximir do exercício de um dever público; portanto, ele se apresentou para expressar sua opinião; e se isso ofendia este ou qualquer outro Governo, ele acreditava que o povo tinha o direito de expressar suas queixas sobre os problemas que os afligiam. (Aplausos.) De uma hora para outra, chegaram ao conhecimento dos habitantes de Plymouth os planos de dispersar os portugueses por outros lugares do reino. Ele perguntou: por que eles teriam de ser separados? Por que dispersados? Certamente, as leis do país devem ser obedecidas; mas qual lei determinava a dispersão dos portugueses? Era, portanto, dever dos que ali se reuniam enfrentar o Governo contra a adoção de tal medida. Eles também deveriam olhar a questão sob dois aspectos – primeiro, como habitantes de Plymouth e, depois, como ingleses. Qual seria o caráter da cidade se esses Refugiados fossem assim dispersados sem que os habitantes pudessem expressar sua opinião sobre o assunto? E qual seria o seu caráter, como ingleses, se tal dispersão viesse a ocorrer? Em tempo de guerra, mesmo aos prisioneiros capturados do inimigo era garantida a liberdade condicional em determinadas cidades; então e por que esses Refugiados seriam separados? Eles foram expulsos de seu próprio país por defender a liberdade constitucional tão apreciada neste país; e, como tal, merecem nossa simpatia e proteção. As propostas foram postas em votação; e, com as mãos levantadas, todos foram unânimes em aprová-las. Outras propostas foram então apresentadas; e, após o grupo ter ouvido os apartes de J. Bird, Esc., do Rev. Rowe, do Capt. Pym, R.N. e de J.H. Macauley, Esc., aprovou-se, com unanimidade: “Que um Apelo, baseado nas propostas, seria apresentado pelos Vereadores do Município ao Secretário de Estado do Departamento do Interior após ser assinado por todos os habitantes”. Foram apresentadas moções de agradecimentos ao presidente da sessão. Em seguida, um dos refugiados dirigiu-se ao grupo, na língua inglesa, para agradecer pelo apoio manifestado em favor de seus compatriotas e disse que esse apoio ficaria gravado em sua memória mesmo muito tempo depois do seu retorno a Portugal, em algum momento futuro. Ele também transmitiria as palavras de apoio a seus compatriotas – os quais, enquanto estivessem na Inglaterra, se comportariam de tal maneira que, ele assim esperava, receberiam a aprovação dos habitantes de Plymouth e de toda a Inglaterra.

O aspecto mais interessante dessa matéria é o fato de que ela informa que os exilados portugueses contavam – ou passaram a contar – com a simpatia dos habitantes de Plymouth – ou ao menos de alguns deles -, o que contrasta com o relato apresentado por Victorino Nemesio, já citado no texto anterior, mas citado novamente a seguir:

Tinham chegado reduzidos a uma desesperada penúria. Os ingleses, surpreendidos por aquele bando maltrapido, deitavam-lhes olhares onde alternavam o desprezo e alguma compaixão. Mas esta rendia pouco. Só os quakers se cotizavam e lhes faziam facilidades; os demais fechavam-se numa indiferença perfeita e um tanto quanto agastada. (Exilados – 1828-1832: História Sentimental e Política do Liberalismo na Emigração –  Victorino Nemésio – p. 51)

Poderíamos supor, com base nesses dois textos, que, inicialmente, a chegada dos ‘maltrapidos’ exilados/refugiados tivesse despertado rejeição nos habitantes daquela cidade portuária e que, com a convivência cotidiana, estes puderam considerar as privações que os estrangeiros sofriam e entenderam que seria necessário apoiá-los, afinal partilhavam os mesmos valores políticos e sociais.

Não tenho evidências das consequências práticas, para os portugueses, do apelo feito pelos seus anfitriões involuntários. Porém é importante destacar que a descoberta da matéria apresentada aqui me ofereceu nova perspectiva sobre a experiência do exílio por que passou o meu parente na primeira metade do século XIX.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

Casamento

… [o sacramento do matrimônio] se consolidou apenas no século XIII. A partir do Concílio de Trento, em 1545, a Igreja desenvolveu uma doutrina em torno do matrimônio, estabelecendo, inclusive, a necessidade do consentimento dos cônjuges e de seus pais, encarregados de proverem dotes ao casal. | Mary Del Priore – Histórias da Gente Brasileira – Volume 1

Embora fosse considerado uma necessidade para a coabitação entre homem e mulher e o reconhecimento da legitimidade da prole, nem sempre o casamento era uma possibilidade, pois os custos envolvidos eram altos. As taxas que a igreja cobrava pela burocracia matrimonial (banhos e dispensas de consanguinidade) estavam além das posses da maioria da população. Não era, por isso, incomum que os casais vivessem amancebados ou, com a vigência do código civil, casados apenas pelo civil. Muitos ainda protelavam o casamento até os 25 ou 27 anos em regiões como Trás-os-Montes. No sul, ao contrário, casava-se mais cedo, antes dos 24 anos.

No trecho de assento abaixo, extraído de minha árvore de costados, além do registro do casamento, é feito o reconhecimento dos filhos que o casal havia tido, portanto é possível supor que esse casal tivesse vivido amancebado até então.

Casamento de Luis Gonçalves e Maria Pinto
Assento de casamento de Luis Gonçalves e Maria Pinto – 30 de Maio de 1892 – Vila Real, Portugal

Aqui a transcrição:

[…] ele, da idade de 43 anos, solteiro, jornaleiro, natural desta freguesia e na mesma batizado e morador […] ella, da idade de 36 anos, solteira, jornaleira, natural do lugar de Safes desta freguesia, e na mesma batizada, filha natural de Maria Pinto, do referido lugar de Safes, […] reconheceram por seus verdadeiros e legítimos filhos, João Luiz, nascido nesta freguesia no dia 8 de junho de 1882 e na mesma batizado no dia 12 do mesmo mês e ano; Maria dos Anjos, nascida nesta freguesia no dia 6 de maio de 1884 e batizada nesta mesma freguesia no dia 23 do referido ano de 1884; Arcelina, nascida nesta freguesia no dia 6 do mês de junho de 1888 e batizada no dia 12 de julho de 1888; Abel, nascido nesta freguesia, no dia 1º de maio de 1890…

O assento registra ainda que os cônjuges eram jornaleiros, isto é, que trabalhavam na lavoura. O casamento nas regiões agrícolas era coordenado com os ciclos de trabalho e a disponibilidade financeira, sendo provável que aumentasse a frequência após as colheitas. A ocupação e a idade avançada do casal corrobora a interpretação de que o casamento pode ter sido adiado por motivos financeiros.

Antes do casamento, anunciava-se a intenção dos noivos nas portas das igrejas onde assistiam às missas a fim de outros se pronunciassem a respeito de eventuais impedimentos. Também realizavam banhos ou proclamas, em que se afirmavam livre para o matrimônio – batizados, solteiros ou viúvos e não prometidos a outros. Finalmente, se houvesse entre eles algum grau de parentesco até o quarto grau, era necessário obter no bispado uma dispensa de consanguinidade.

Quanto à celebração do casamento, era costume evitar a Quaresma e o Advento. Evitava-se também o mês de agosto e as terças e sextas-feiras, por serem considerados azarentos. Em minha árvore de costados, de 24 casamentos analisados, dois ocorreram numa terça-feira (21 de janeiro de 1817 e 9 de junho de 1868) e nenhum no mês de agosto.

Os noivos vestiam preto, costume que perdurou entre as camponesas até as primeiras décadas do século XX. O vestido branco da noiva não se tornou hábito até a metade do século XIX, e ainda assim apenas se popularizou entre as elites. Também não havia troca de alianças, costume que apenas se tornou frequente na transição do século entre as classes mais elevadas e não era observado entre os camponeses de muitas regiões ainda na década de 1940. Muitos dos costumes que se tornaram habituais no século XX se deveram à influência de manuais de etiqueta traduzidos do francês, e sua influência inicial se deu nos centros urbanos, só mais tarde chegando às províncias.

No interior e nas regiões rurais, costumes mais tradicionais se mantiveram ainda por muito tempo. Nesses lugares, o cortejo que saía da casa da noiva era encabeçado pelo noivo – embora houvesse regiões onde a noiva ia na frente – e os padrinhos, que em muitas regiões deveriam obrigatoriamente ser os de batismo. A noiva podia entrar na igreja sozinha ou acompanhada dos padrinhos e não devia ser vista pelo noivo antes de chegar ao altar para não dar chance ao azar. Entre os analfabetos, as mães não assistiam ao cortejo e, em alguns lugares, os pais de ambos os noivos não participavam da cerimônia. Os presentes dados aos noivos em regiões como Trás-os-Montes eram modestos, em geral utensílios de cozinha e, entre os mais pobres, produtos alimentícios.

A prevalência do casamento civil sobre o religioso só ocorreu de fato a partir da primeira década do século XX, embora já estivesse garantida desde 1865-1866 com a redação do Código Civil. A grande resistência da igreja, inclusive com pressão do Vaticano sobre o poder político, retardou a laicização do casamento, que passou a garantir também aos não cristãos o reconhecimento de suas uniões.


José Araujo é linguista e genealogista amador.

Relato

Não sou historiador, porém a pesquisa genealógica me obriga a estudar muito não apenas a respeito dos períodos históricos em que viveram meus antepassados como também a respeito do fazer histórico propriamente dito – a coleta das fontes documentais, sua análise e o registro dos resultados – e da historiografia, o estudo da evolução dessa ciência. Na seção Livros apresento as obras que busquei para melhor realizar minhas análises e interpretações dos diversos registros documentais que encontro para trazer à luz a história de minha família.

Um aspecto que me despertou grande interesse nesses estudos foi a crescente interdisciplinaridade da História durante o século passado, isto é, a constatação de que o trabalho do historiador não poderia prescindir dos conhecimentos oriundos em outras áreas, como a Antropologia, a Comunicação Social, a Filosofia, a Linguística – minha área de formação – e até dos estudos literários. Essa ampliação dos olhares sobre a História se reflete aqui no blog, por exemplo, no recurso a textos literários e jornalísticos produzidos por – ou a respeito de – meus parentes como forma de interpretar suas ações e, na medida do possível, busca entender o que sentiam e pensavam.

Uma questão apresentada em uma das obras de referência consultadas e que muito despertou minha atenção foi a constatação de que o historiador “começou a se perceber como literato, e muitos passaram a buscar aprimorar novas formas de expressão na elaboração” de seus relatos. Foi assim que a História começou a frequentar outros ambientes além do acadêmico, e muitos não historiadores praticamente se tornaram best sellers, como foi o caso de Eduardo Bueno, Laurentino Gomes e Pedro Doria, o que gerou desconforto entre os historiadores profissionais.

Pensar em novas formas de expressão na elaboração dos relatos me estimulou a produzir um gênero de texto diferente aqui no blog. Esse texto seria fundamentado em informações obtidas a partir de uma entrevista feita com uma irmã de meu pai. Essa entrevista teve o propósito de resgatar fatos sobre a vida de meus avós paternos, fatos esses que minha tia ou testemunhou ou ouviu como narrativas de família. Essa tia se revelou uma testemunha bastante fiel para o resgate de fatos e narrativas, portanto eu sabia que poderia obter muitas informações relevantes com as quais tecer um texto diferente.

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Tecelão, tinta por Vincent Van Gogh (1853-1890, Netherlands)

O roteiro da entrevista, que foi conduzida pela filha dessa tia durante um fim de semana, pode ser visto abaixo.

  1. Onde ficava a casa dos Araújo?
  2. Os parentes de vovó – família Rebosa – viviam em Nova Iguaçu?
  3. A tia chegou a conhecer esses parentes?
  4. Como era vovô como pai, no dia a dia? Era severo, carinhoso, calado?
  5. Ele gostava de ler? O que ele lia? E vovó?
  6. Vovô chegou a voltar a Portugal em algum momento?
  7. Ele falava sobre a vida em Portugal? Falava dos parentes? O que a tia sabe dos avós dela?
  8. A família Araújo vivia com conforto material?
  9. Vovô era religioso? Ia às missas? Fazia questão que os filhos fizessem primeira-comunhão?
  10. Ele tinha amigos? Eram portugueses ou brasileiros?
  11. Ele se vestia bem? Era vaidoso?

O relato elaborado a partir dessa entrevista poderá ser visto no próximo texto.


José Araújo é linguista e genealogista amador.