Relato

Não sou historiador, porém a pesquisa genealógica me obriga a estudar muito não apenas a respeito dos períodos históricos em que viveram meus antepassados como também a respeito do fazer histórico propriamente dito – a coleta das fontes documentais, sua análise e o registro dos resultados – e da historiografia, o estudo da evolução dessa ciência. Na seção Livros apresento as obras que busquei para melhor realizar minhas análises e interpretações dos diversos registros documentais que encontro para trazer à luz a história de minha família.

Um aspecto que me despertou grande interesse nesses estudos foi a crescente interdisciplinaridade da História durante o século passado, isto é, a constatação de que o trabalho do historiador não poderia prescindir dos conhecimentos oriundos em outras áreas, como a Antropologia, a Comunicação Social, a Filosofia, a Linguística – minha área de formação – e até dos estudos literários. Essa ampliação dos olhares sobre a História se reflete aqui no blog, por exemplo, no recurso a textos literários e jornalísticos produzidos por – ou a respeito de – meus parentes como forma de interpretar suas ações e, na medida do possível, busca entender o que sentiam e pensavam.

Uma questão apresentada em uma das obras de referência consultadas e que muito despertou minha atenção foi a constatação de que o historiador “começou a se perceber como literato, e muitos passaram a buscar aprimorar novas formas de expressão na elaboração” de seus relatos. Foi assim que a História começou a frequentar outros ambientes além do acadêmico, e muitos não historiadores praticamente se tornaram best sellers, como foi o caso de Eduardo Bueno, Laurentino Gomes e Pedro Doria, o que gerou desconforto entre os historiadores profissionais.

Pensar em novas formas de expressão na elaboração dos relatos me estimulou a produzir um gênero de texto diferente aqui no blog. Esse texto seria fundamentado em informações obtidas a partir de uma entrevista feita com uma irmã de meu pai. Essa entrevista teve o propósito de resgatar fatos sobre a vida de meus avós paternos, fatos esses que minha tia ou testemunhou ou ouviu como narrativas de família. Essa tia se revelou uma testemunha bastante fiel para o resgate de fatos e narrativas, portanto eu sabia que poderia obter muitas informações relevantes com as quais tecer um texto diferente.

Vincent-Van-Gogh-Weaver
Tecelão, tinta por Vincent Van Gogh (1853-1890, Netherlands)

O roteiro da entrevista, que foi conduzida pela filha dessa tia durante um fim de semana, pode ser visto abaixo.

  1. Onde ficava a casa dos Araújo?
  2. Os parentes de vovó – família Rebosa – viviam em Nova Iguaçu?
  3. A tia chegou a conhecer esses parentes?
  4. Como era vovô como pai, no dia a dia? Era severo, carinhoso, calado?
  5. Ele gostava de ler? O que ele lia? E vovó?
  6. Vovô chegou a voltar a Portugal em algum momento?
  7. Ele falava sobre a vida em Portugal? Falava dos parentes? O que a tia sabe dos avós dela?
  8. A família Araújo vivia com conforto material?
  9. Vovô era religioso? Ia às missas? Fazia questão que os filhos fizessem primeira-comunhão?
  10. Ele tinha amigos? Eram portugueses ou brasileiros?
  11. Ele se vestia bem? Era vaidoso?

O relato elaborado a partir dessa entrevista poderá ser visto no próximo texto.


José Araújo é linguista e genealogista amador.

Histórias

A pesquisa genealógica é baseada em documentos, como tenho explicado em todos os textos publicados até agora. Mas ela se alimenta também de outras fontes, entre elas as histórias de família. Toda família tem as suas, que são transmitidas de geração em geração, embora nem sempre as gerações mais novas deem a elas o devido crédito.

Mas deveriam dar, se considerarem que um dia poderá surgir a necessidade ou a oportunidade de obtenção de cidadania para emigração. Minha experiência tem mostrado que, infelizmente, quando essa necessidade ou oportunidade surge, os interessados não têm os documentos de seus antepassados, não sabem onde localizá-los e não podem mais obter informação de primeira mão, pois seus antepassados já faleceram.Leia mais »